
Fazer uma música é algo curioso, e com a pequena experiência que tenho no assunto, devo dizer que é algo que tem de ser livre, solto, desprovido de qualquer senso de obrigação, de qualquer rigor teórico ou técnico. É legal perceber como você aos poucos vai se expressando, mesmo sem perceber.
Às vezes, eu começo por alguma idéia que dê origem a uma imagem poética. Penso na força que uma palavra pode ter, na importância de certos momentos, ou mesmo em simples detalhes e impressões captados ao longo do dia-a-dia. Um cheiro, uma imagem, um som, uma idéia, algum sentimento indefinido. Tudo isso tem potencial para ficar lá no fundo, guardado, esperando a sua vez de virar música.
Outras vezes, posso simplesmente ficar brincando com meu violão, viajando, tentando manter a cabeça vazia, tentando fazer com que ela não guie minhas mãos, e tentando fazer com que permaneça o mais impressionável possível por todo e qualquer som que saia do instrumento.
Começo dedilhando um Ré maior, encaixo um Mi aqui, um Sol ali, repito, Sol maior, e por que não testar um Si menor entre os outros acordes? Mais um Lá menor aqui e... de repente toda essa progressão de notas e acordes me faz lembrar de uma tarde distante, fria e estranha, em que, ao olhar pela janela, me impressionei com formas majestosas esculpidas nas nuvens. E de repente essa lembrança se torna uma só com aquilo que minhas mãos, inconscientes, insistem em tocar pela escala do violão.
A música recém trazida ao mundo se torna uma trilha sonora para a minha lembrança, e aos poucos começo a sentir uma ânsia por palavras. Um papel, um lápis, sempre à mão. E a canção se constrói sozinha. E quando ela se recusa a vir? Às vezes, é claro, as palavras insistem em querer ficar ocultas, os pensamentos e sentimentos não querem fluir, ou a música em si simplesmente soa feia, estranha, seca. Então, eu não tento extraí-los à força. Não quero usar palavras, notas ou sentimentos impostores e correr o risco de os verdadeiros não aparecerem nunca mais. Simplesmente os deixo em paz, pois quando a canção quiser vir ao mundo, ela o fará sozinha, só tendo o trabalho de usar minhas mãos.

